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Os Aparecidos Políticos

“Onde for, stuff numa praça ou esquina, health fazem acontecer os discursos e as trocas. Pode ser sem palavras”

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search 2798791/os-aparecidos-politicos.shtml”> Das antigas Os Aparecidos Políticos (0)

Há um grupo de estudantes universitários que anda catando memória pela Cidade. São Os Aparecidos Políticos. Fantasmas (vivos) para os que ainda não se resolveram com as dívidas feitas na ditadura militar. Andam por aí, querendo saber do paradeiro de outros jovens sumidos entre o 64 e 85. Procura-se Jana, procura-se Teodoro, procura-se Custódio, procura-se Montenegro…

Foram os Aparecidos que rebatizaram o Centro Social Urbano Presidente Médici, na coronel Murilo Borges, para Centro Social Urbano Edson Luís. Um estudante morto em São Paulo. Aqui, no umbigo da gente, bem que poderia ter ganhado o nome de Bergson Gurjão. Ex-aluno do Batista, jogador de basquete do Náutico porque era galalau, ex-acadêmico da UFC, guerrilheiro do PCdoB, morto no Araguaia, filho de dona Luiza – a mãe que esperou até os 96 anos pela volta do rebento.

 

Quando o rapaz regressou em 2009, fui testemunha, ela quis ficar por aqui por mais quatro meses… Depois, finalmente, se juntou à cria e ao finado marido. Se eu fosse rodar uma película, de nome Luiza e Bergson, colocaria a irmã dele – Tânia Gurjão e Noel Rosa – cantarolando: “Agora vou mudar minha conduta/ Pois esta vida não está sopa e eu pergunto com que roupa? Com que roupa que eu vou/Pro samba que você me convidou…”. Foi a última cantiga que a mãe ouviu do filho quando ele decidiu ir pra luta armada em 1972.

 

Sim, Os Aparecidos Políticos também deram outra graça à praça que fica em frente ao quartel do 23º Batalhão de Caçadores. Em nome da memória, dos silêncios e das versões sobre a verdade, passou a se chamar também, desde novembro de 2011, de Praça do Preso Político Desaparecido. Num pedestal, debaixo das sombras dos pés de manga, foi posto um busto encapuzado.

 

Bem ali, na 13 de Maio, quase em frente ao que restou de um avião meio engembrado, com cara de choro e história mal alinhavada. Um Piper Aztec, que atingido por um caça da Força Aérea Brasileira, no 67, acabou derrubando e matando o ex-presidente Humberto Castelo Branco. O primeiro general de 1964 – um ano que foi até hoje.

 

Os Aparecidos Políticos se improvisam um coletivo de arte ativista. Um magote de rapazes e moças que se apropria da Cidade sem se prender aos espaços formais reservados à arte e afetos. Onde for, numa praça ou esquina, fazem acontecer os discursos e as trocas. Pode ser sem palavras, sentado num banco pra torturados, em vermelhas e roxas as partes do corpo quase nu, o capuz e o estranhamento de quem passa.

 

Quem é o doido? É um tal de Bergson, uma tal de Jana, um tal de José Montenegro, um tal por Pedro Jerônimo, um tal de Teodoro, um tal Tito, um tal Guimarães ferroviário, um tal de Custódio… Quem? Uma negada que foi torturada, suicidada ou obrigada a tomar chá de sumiço e até hoje não acertou o caminho de casa.

 

E foi? Foi, ouvi falar. Tem parente que até hoje vaga ou já morreu e não enterrou a irmã, o esposo, o sobrinho… Cruzes! Parece aquelas conversas, dos que sumiram no último mergulho e o mar nunca os apareceu. Fazer o que, um oceano tão grande! História, rapaz! Pode domorar, mas um dia ele bota pra fora…

(Os Aparecidos Políticos podem ser encontrados no www.aparecidospoliticos.wordpress.com ou aparecidospoliticos@gmail.com)

 

Fonte:

http://www.opovo.com.br/app/colunas/dasantigas/2012/03/10/noticiasdasantigas,2798791/os-aparecidos-politicos.shtml