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Quase 40 anos depois e o peso do real no simbólico:
Uma caixa, leitor, uma Caixa.
Eu estava longe, mas via, como de perto, algo que se movia…
Eu imaginava o quão quente era ali, depois de anos em terra úmida.

E, de repente, o real pesou: as Ossadas de uma pessoa.

Não queria ver, apesar de imaginar, o que estava ali na minha
frente…Como será que estavam esses ossos nessa caixa? Ossos, que de tão fechados, mostravam um corpo cearense bem aberto..bem aberto como nossas veias, nossos olhos, nossas memórias.

Sim! Eu me lembro! Mesmo aos meus 25 anos que há 40 anos pessoas cairam por um ‘crime’…Eu me lembro e ainda escuto velhos carrancudos e bofejantes dizerem que ‘eles mereciam’; ‘era uma guerra’; ‘bando de…’

Sim…Como não lembrar disso? Como olhar pra aquela caixa e não escutar um barulho vazio e ensurdecedor?

Esse peso, essa caixa.

Então, eu estava perto, mas via como de longe, algo que se distanciava:
Algo que fazia e faz, em um inquietante silêncio como daquela caixa,
homens silenciarem em seus cargos públicos e em seus cômodos lares…
Algo que sempre fez esses homens se esquivarem ao serem apontados:
TORTURADORES!

A distância leva isso…
Um peso que ainda sangra e cheira a corpo de gente vindo da terra…Um
peso tão forte – que sempre retorna – chamado:
Justiça e Memória!

Dedicado a Bergson Gurjão e a todos/as caídos na Ditadura Militar.

 

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