Até 20 de maio, o coletivo Aparecidos Políticos participa do projeto “Ateliê do Artista”

00:00 · 22.03.2017 por Iracema Sales – Repórter

Trabalhos do coletivo Aparecidos Políticos no Sobrado Dr. José Lourenço: construção coletiva

O coletivo Aparecidos Políticos – que tem como filosofia “lembrar para não acontecer mais” – ocupa, desde o último sábado (18), uma das salas do Sobrado Dr. José Lourenço, como parte do projeto “Ateliê do Artista”.

Criado em 2009, o grupo, que conta com artistas e ativistas políticos, realiza intervenções urbanas, performances, vídeos, entre outras manifestações artísticas, tendo como foco a luta em defesa dos direitos humanos.

“Temos novos desaparecidos políticos. Pessoas continuam sendo mortas pelo Estado, e um novo golpe está acontecendo”, denuncia Marquinhos Abu, integrante do coletivo desde sua criação, em 2009.

O objetivo das ações é a (re)construção das memórias, principalmente aquelas que, muitas vezes, não fazem parte da história oficial, caso dos desaparecidos políticos da ditadura militar (1964-1985) no Brasil.

A ocupação continuará até 20 de maio, e terá como principais protagonistas os moradores da cidade, convidados a participar de intervenções dentro e fora do Sobrado.

O resultado poderá ser a elaboração de uma obra de arte a ser exposta, conforme explica Carolina Ruoso, curadora do Sobrado Dr. José Lourenço. A convocação para as datas das intervenções podem acompanhadas no endereço facebook.Com/SobradoJL.

A atividade é uma resposta à chamada do Conselho Internacional de Museus (Icom) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) ao lançar o desafio “Museus e histórias controversas: dizer o invisível nos museus”. O tema servirá de mote para as atividades a serem realizadas durante a Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), no próximo mês de maio.

A convocatória é dirigida às gestões dos museus para fazer uma reflexão sobre qual papel desses equipamentos na sociedade, em especial na construção das memórias. “Como estão sendo contadas as histórias dos migrantes, do colonialismo, das diferentes etnias? Qual a representação dos negros e indígenas nos museus?, indaga Carolina.

Espaço

O Sobrado Dr. José Lourenço, que já preparou a programação da Semana Nacional dos Museus, antecipa-se à discussão, ao convidar o Aparecidos Políticos para o projeto “Ateliê do Artista”. A finalidade é discutir a função do ateliê, inquietação lançada no século XX, por alguns artistas. Um dos principais questionamentos é quanto ao trabalho dos curadores na escolha das obras para as exposições.

Carolinan Ruoso cita o texto do artista conceitual francês Daniel Buren, “A função do ateliê”, no qual afirma ser este o espaço mais importante para o artista, mais ainda que a galeria ou o museu.

O museu, na verdade, poderia muito bem ser o ateliê do artista, provoca Buren, mostrando que suas observações continuam atuais.

Com base nesse pensamento, Carolina decidiu criar o projeto “Ateliê do Artista”, para “desenvolver um processo de criação dentro do museu”. Com o viés de arte, política e história, caberá ao Aparecidos Políticos ajudar a descobrir o que sociedade, governos e museus estão fazendo com a memória da ditadura militar brasileira e os direitos humanos.

O trabalho do grupo contará diretamente com a participação dos moradores de Fortaleza, convidados a comparecer ao Sobrado para realizar as ações. Outras serão feitas nas ruas da Capital.

O projeto propõe várias reflexões, entre elas a de como o museu pode pensar sobre a preservação da obra no contexto da arte contemporânea, completa Carolina.

Calar

“Quem são os desaparecidos políticos de hoje?”, indaga Raquel Santos, integrante do grupo, formado por sete artistas-ativistas. A resposta é imediata: “São as Dandaras, as populações quilombolas e os indígenas que tanto a mídia quanto o governo tentam calar”.

Novata no grupo, Raquel demonstra interesse em desenvolver um espaço de memória no interior do Sobrado, que abrigará o coletivo durante dois meses. “Queremos criar essa memória aqui dentro”, diz, fazendo alusão aos invisíveis da história.

Nesse sentido, a obra resultante desse novo trabalho será construída no dia a dia, tal qual o processo histórico em si. “Estamos pensado em elaborar painéis e vídeos mostrando os artista interagindo com o público”, propõe Carolina.

A sala do terceiro andar do equipamento, localizado no Centro de Fortaleza, será toda ocupada, convoca Raquel Santos. Enquanto pensam na obra a ser elaborada, os integrantes do coletivo exibem sua biblioteca e realizam projeções.

Uma das intenções é criar um vídeo sobre a vivência na Cidade, tendo como enfoque as lutas sociais do momento, que vitimam outros “desparecidos políticos”, lembrando o caso recente da travesti Dandara dos Santos, assassinada brutalmente, em fevereiro, no bairro Bom Jardim.

Pendente

Para Marquinhos Abu, integrante do coletivo desde sua primeira formação, o Brasil ainda não virou uma das páginas recentes de sua história, que trata sobre a ditadura militar, fazendo com que o assunto fique pendente.

O recente trabalho da Comissão da Verdade – inspirado nas ações desenvolvidas por ativistas argentinos, a exemplo d’As mães da Praça de Maio, que exigem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983) – foi uma tentativa nesse sentido, mas insuficiente para dar conta das consequências ainda vivas desse capítulo da história nacional.

Na mesma esteira, o Aparecidos Políticos começou tendo como reivindicação os direitos dos desaparecidos políticos do regime militar, com a chegada dos restos mortais do militante cearense Bergson Gurjão (1947-1972), morto na guerrilha do Araguaia, em outubro de 2009.

Desde então, o grupo passou a realizar intervenções urbanas com o intuito de resgatar a memória dessas pessoas – esclarecimento até hoje não prestado pelo Estado.

“Os problema atuais são representados pelas violações dos direitos humanos. O Estado é o maior violador”, denuncia Abu, alertando “para o golpe que está acontecendo”.

Mais informações:

Ateliê do Artista com o coletivo Aparecidos Políticos. Até 20 de maio, no Sobrado José Lourenço (R. Major Facundo, 154, Centro). Visitação: de terça a sexta, das 9 às 16; sábados, das 9h às 12h. Contato: (85) 3101.8827