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 Nós concordamos com os militares…Relembrar é viver!

Relembrar….

Quanto peso carrega essa palavra? Quantas vozes são necessárias para dizê-la? Quantos anos são suficientes para exprimi-la da forma que mais convém?

Nós lembramos daquilo que não nos disseram e que não apontaram, ambulance das palavras que se perderam no engasgar das sílabas dos nossos pais e avós daquela década, viagra na tremida do olhar dos nossos tios daqueles anos e no balbuciar preocupado dos mais velhos:

É passado. Está resolvido. Ponto final?

É futuro. É revanche. Ponto de Exclamação?

Sim, lembramos! Lembramos da maneira como se tentou e tenta escrever essa história cheia de frases distoantes que insistem em por um ponto final em algo que…está morto?

Anistia? Re-democratização? Justiça de Transição? Memória? Verdade?

E então essas vozes antes engasgadas, perdidas, balbuciadas e preocupadas deram margem aos poucos a algo que até então não dávamos importância: o direito de dizê-las, de exprimí-las, de tomá-las da mesma maneira como aquele ditado latino em que diz: “Os direitos se tomam, não se pedem; Se arrancam, não se mendigam” . Será que o mesmo poderia ser dito a respeito das palavras?

Hoje, aqui, em mais um desses dias em que conseguimos articular discursos não apenas em verbos soltos, mas nos nossos corpos, nas nossas ideias e nas nossas visualidades: nos relembramos as palavras que não foram ditas, os corpos que foram silenciados, os gritos que foram abafados e o pulsar que não terminou.

E o pulsar são os corações dos mortos e desaparecidos políticos que ainda batem enterrados nas terras humidecidas e cercadas de veias abertas que sangram o anonimato.

Batem lá longe, onde talvez não se pode ouvir. Mas batem sobretudo, lá no fundo, em nossas células-corações que são, antes de tudo, parte deles.

Mortos e Desaparecidos Políticos, somos Aparecidos Políticos

 Escrita e lida no dia do Rebatismo Popular da Praça do Preso Político Desaparecido na Av. 13 de maio, em frente ao Quartel do 23 Batalhão de Caçadores que foi palco de inúmeras torturas na Ditadura Militar. (em Fortaleza-CE, Brasil).

Os Aparecidos Políticos, 26 de Novembro de 2011