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O Grupo Aparecidos Políticos, look a partir de uma perspectiva da relação entre arte e política (ou artivismo) realizou, em Fortaleza (CE) uma série de intervenções urbanas no intuito de discutir questões concernentes ao direito à memória relacionado à atualidade.

As ações foram realizadas nas mediações do centro da cidade, em espaços que carregam não somente concretos, ruas asfaltadas e prédios altos: um corpo urbano, mas em espaços que carregam o peso de conflitos, de pausas e gritos. Em cada ação o grupo escolheu um local que teve/tem relação com o período da Ditadura Militar (1964-1984), fixou cartazes dos rostos de mortos e desaparecidos políticos juntamente com pedaços de corpos de madeira: os ex-votos.

As ações foram realizadas em espaços que tiveram/têm alguma relação com aquele período, mas não necessariamente tendo as figuras dos cartazes uma relação direta com o local. Em uma das intervenções, realizada em frente à Corregedoria Geral dos Órgãos de Segurança Pública (uma espécie de ouvidoria da Polícia), o Grupo pediu o afastamento do atual Corregedor, José Armando Costa, que é acusado de ser conivente com sessões de espancamento contra pelo menos cinco ex-presos políticos cearenses . A Associação 64/68 Anistia e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República já haviam pedido a exoneração do cargo, por esse delegado ter sido, por exemplo, citado no texto da Arquidiocese de São Paulo (Brasil Nunca Mais) que relaciona ações de agentes do Estado brasileiro que obtiveram informações de presos políticos por meio da tortura física ou psicológica.

Ademais dessa ação, mais 7 ações foram realizadas no espírito do “para que não se esqueça, para que não mais aconteça”:

1) próximo à atual Secretaria de Cultura de Fortaleza: ex-sede da Policia Federal, local de tortura na época do regime militar foi colado um cartaz de Lígia Maria Salgado Nóbrega (ex-militante da resistência, assassinada em 1972 pela ditadura militar, seu corpo chegou ao IML-RJ, como desconhecida, pela Guia Nº 01 do DOPS/RJ segundo o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964.

2) próximo à 10ª região Militar onde foi presa Bárbara de Alencar e muitos presos políticos interrogados. No Local que funciona a 2a. Seção do Exército, cérebro do serviço de informações sobre a vida dos cidadãos, foi afixado um cartaz de Frei Tito de Alencar, cearense dominicano banido do pais em 1971: foi provada a relação de causa e efeito entre a prisão, tortura e posterior desequilíbrio psíquico que levou Frei Tito ao suicido.

3) nas mediações do duplex na Rua Major Facundo, (próximo à Praça do Carmo), onde funcionava o CESC-Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará foi colado um cartaz de Custódio Saraiva Neto: cearense (um dos mais jovens participantes da guerrilha da Araguaia) em que seu desaparecimento é datado entre janeiro e 15/02/1974 segundo o livro Direito à Memória e à Verdade da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

4) perto da rua General Sampaio, em frente a Casa Juvenal Galeno, onde funcionava a sede semiclandestina do partido comunista, sob o nome de fachada de Escritorio Eleitoral 25 de março foi fixado um cartaz de Amaro Felix Pereira: ex-líder dos trabalhadores rurais de Pernambuco, seu desaparecimento data de 1971/72.

5) no Diretório Central dos Estudantes, local direto de resistência e mobilização estudantil fixou-se o cartaz de Jana Moroni Barroso: cearense desaparecida em 1974. Segundo relato do livro-relatório Direito à Memória e à Verdade “A mãe de Jana, Cyrene Moroni Barroso, visitou várias vezes a região do Araguaia e recorreu aos poderes públicos na busca de informações sobre o paradeiro da filha. Segundo depoimentos colhidos por sua mãe, Jana foi presa e levada para Bacaba, na rodovia Transamazônica, onde operava um centro de torturas.” (p. 238).

6) na Avenida da Universidade, logradouro que serviu e serve de espaço para diversas manifestações que partem em direção ao Centro de Fortaleza foi fixado o cartaz de Alfeu de Alcântara Monteiro: O tenente-coronel Alfeu (…) foi morto no quartel geral da 5ª Zona Aérea, em Canoas (RS), no dia 04/04/1964. Segundo o livro-relatório, “Ele foi um dos responsáveis por impedir que os caças daquela base decolassem para bombardear o Palácio Piratini, sede da resistência legalista, desobedecendo ordens expressas que foram emitidas por autoridades militares superiores”.

7) na Avenida Heráclito Graça foi fixado o cartaz de Mariano Joaquim da Silva: desaparecido político em 31/05/1971 afrodescendente e filho de uma família camponesa pobre, foi um dirigente da organização VAR-Palmares.

Fotos da Intervenção